A região do Cariri, no Estado da Paraíba, é um dos lugares mais belos do sertão brasileiro, onde a paisagem típica da caatinga é pontuada por recantos dotados nos quais a água abundante e o verde da vegetação enchem os olhos dos visitantes. Compreende 29 municípios que são divididos entre duas microrregiões: o Cariri Ocidental (com 6.983 km²) e o Cariri Oriental (com 4.242 km²). Parte integrante da Mesoregião da Borborema, trata-se de uma das regiões mais secas e de temperaturas mais altas do Brasil, com uma média de 25º C.
A aridez local faz um contraponto com a bacia hidrográfica do rio Paraíba, quase em sua totalidade abrigada no Cariri, onde o sertão brasileiro foi abençoado com a maior concentração de oásis. A paisagem típica dessa região de caatinga compõe-se ainda de cactos (a palma forrageira é a mais abundante), bromélias e grandes formações rochosas que atraem turistas de todo o mundo e ainda servem de moradia para alguns nativos. Uma das mais conhecidas é a Muralha dos Gigantes, que se estende do Rio Grande do Norte e chega até quase Pernambuco, cortando o Cariri ao meio.
No Lajedo de Pai Mateus, localizado em Cabaceiras, pode-se apreciar uma paisagem única formada por cerca de uma centena de grandes pedras arredondadas que chegam a pesar 45 toneladas. Elas são palco de sítios arqueológicos com inscrições e figuras rupestres e artefatos de grupos indígenas primitivos como flechas, lanças, machados e panelas, indicando a presença do homem há mais de três mil anos.
Raridades não só geológicas mas também históricas estão espalhadas por quase todo Cariri, como no Sítio do Bravo, em São João do Cariri. Lá foram encontradas ossadas de grandes mamíferos que viveram há cerca de um milhão de anos, como tigre dente-de-sabre e preguiça gigante.
As manifestações folclóricas e os festejos religiosos são uma marca de seu povo. É onde pode-se escutar um autêntico forró pé-de-serra nas festas de São João ou participar de eventos como a Festa do Bode na Rua, no município de Gurjão, e a festa da padroeira de Nossa Senhora do Livramento, no município de Livramento.
O algodão cultivado no século passado deu espaço à caprinocultura. E nos dias de hoje seu potencial turístico vem sendo desbravado, dando novas oportunidades de sustento para o povo do Cariri (assim chamado por compor a principal família de línguas indígenas do sertão do Nordeste). Além da pecuária caprina, utilizada por sua facilidade de adaptação à região semi-árida do Cariri, a extração de lenha é outra atividade local bastante comum.
Um tipo de solo que pouco absorve água, um baixíssimo índice pluviométrico e a vegetação de pequeno porte arbustivo-arbórea denota uma fragilidade do local totalmente contraposta pelo seu povo. “O sertanejo é antes de tudo um forte”, dizia Euclides da Cunha, autor de Os Sertões. Sinônimo de resistência física, o sertanejo também é conhecido pela sua autenticidade, que se expressa no seu particular modo de vida, e propagado seja na literatura de cordel, seja nas peças de artesanato (principalmente as feitas de couro) ou em seus festejos.
Através de Euclides da Cunha, no livro acima citado, podemos quase ver a típica imagem do Cariri, composta de mais de 900 espécies de plantas da caatinga: “A luta pela vida, que nas florestas se traduz como uma tendência irreprimível para a luz, desatando-se os arbustos em cipós, elásticos, distensos, fugindo ao afogado das sombras e alteando-se presos mais aos raios do Sol do que aos troncos seculares de ali, de todo oposta, é mais obscura, é mais original, é mais comovedora. O Sol é o inimigo que é forçoso evitar, iludir ou combater. E evitando-o pressente-se de algum modo, como o indicaremos adiante, a inumação da flora moribunda, enterrando-se os caules pelo solo. Mas como este, por seu turno, é áspero e duro, exsicado pelas drenagens dos pendores ou esterilizado pela sucção dos estratos completando as insolações, entre dois meios desfavoráveis -- espaços candentes e terrenos agros --as plantas mais robustas trazem no aspecto anormalíssimo, impressos, todos os estigmas desta batalha surda.”